Philippe Pinel (1745 – 1826) – O Nascimento da Clínica Psiquiátrica

“As histórias particulares que se encontram nas coleções de observações não são mais do que fatos isolados, em que o verdadeiro método descritivo está igualmente negligenciado, e os autores não tiveram outro objetivo a não ser dar validade a alguns remédios, como se o tratamento de toda a doença, sem o conhecimento exato de seus sintomas e de sua marcha, não fosse tão perigoso quanto ilusório.” Philippe Pinel

Philippe Pinel (1745 – 1826) foi um importante médico, filósofo, cientista e reformador francês durante os séculos XVIII e XIX. Um dos autores que faz parte da fundação do saber psiquiátrico. Suas ideias e escritos influenciaram gerações posteriores, fornecendo novos ângulos para interpretar e buscar compreender o sofrimento mental. Sempre é um desafio articular a Tradição dos Alienistas, o Nascimento da Clínica e as repercussões, ao longo da história, dessa premissa científica na sociedade. Esse nó, de alguma forma, tende a retornar em P. Pinel. Um percurso entre os avanços clínicos/científicos na medicina, ao mesmo tempo, a apropriação da “loucura” pela medicina junto aos Estados.


Philippe Pinel (1745 – 1826) – CCC – Wikipedia

Partindo de uma posição doutrinária materialista psicofisiológica, foi rigoroso com sua fundamentação filosófico-científica, utilizando método de descritivo e análise e síntese de sua experiência empírica e racional. Organizando os fenômenos apresentados pelo sofrimento mental grave, sistematizando, fundamentando as causas, consequências e tratamento para o que chamava “alienação mental”. Essa nascente tradição alienistas é marcada pela observação.

Marcando assim, um retorno a Hipócrates, rompendo o dogma galenista(vigente na época). Observando, descrevendo, analisando e sistematizando os fenômenos psíquicos, a marcha das doenças, buscando colocar em evidência métodos para dar conta das causas, evoluções e desfechos, dos pacientes internados em Bicêtre, durante os anos II e III da República, após o período conturbado conhecido como Revolução Francesa. A tradição dos alienistas é marcada pela observação.

” Uma luta eterna parece ter-se estabelecido desde os primeiros séculos da medicina entre um empirismo cego e o exercício legal da medicina, entre aqueles que, pelo pouco alcance de suas luzes ou atraídas pelo lucro, ativeram-se a preferências exclusivas por certos medicamentos, e aqueles que formavam uma classe de homens submetidos pela autoridade das leis a cursos preliminares de estudos, a prova de capacidade e de saber. ” Philippe Pinel

Através do método descritivo, Pinel dava atenção à fisiologia e como essa homeostase era afetada pelas causas morais, pelos “efeitos das paixões na economia animal”. Buscando o que chamava de “lesão nas faculdades intelectuais” por um acontecimento da vida, de causas morais, um sentido bem amplo o signo “moral” na época, essa lesão vai fazer com que a pessoa sofra de diferentes formas de “alienação mental”. Vai criar uma das primeiras nosografias/nosologias do sofrimento mental. E propor um tratamento institucional, com afastamento da pessoa do meio que causou o sofrimento, melhor alimentação, atividade física, leituras, evitar o ócio, firmeza e brandura, é a premissa que chamava de “tratamento moral”(que vai ser diferente dependendo do local e do autor).

Ao nível do social cada vez mais essa problemática vai culminar na apropriação da loucura pela medicina e na transformação das instituições asilares em instituições manicomiais como modelo de tratamento total ao sofrimento mental. Ao longo da história posições higienistas se utilizaram de fundamentos teóricos para consolidar as instituições manicomiais, tendo como consequência a perpetuação e aumento exponencial da lógica de exclusão, chegando a situações catastróficas.

No espaço da clínica Philippe Pinel caracterizou o nascimento da atividade clínica do médico moderno, como uma orientação consciente e sistemática, tanto para pesquisa científica, quanto para prática médica. Sendo uma referência inestimável para os lampejos do conhecimento que vieram posteriormente. É também o fundamento para orientação da praxis do clínico.

“Sabe-se o quanto a opinião pública é pouco favorável à medicina e eu teria pouca dificuldade para fazer concordar que, entre todas as partes da história natural, a mais difícil é a arte de observar as doenças internas e interpretá-las por meio dos caracteres externos.” Philippe Pinel



Bibliografias consultadas:

  • Tratado Médico-Filosófico sobre a Alienação Mental Ou a Mania (1800) – Philippe Pinel – Tradução de Joice Armani Galli – Editora da UFRGS, 2007.
  • Os Fundamentos da Clínica – história e estrutura do saber psiquiátrico – Paul Bercherie – Tradução Vera Ribeiro – Editora Zahar, 1989.
  • O Nascimento da Clínica (1963) – Michel Foucault – Tradução Roberto Machado – Editora Forense Universitária, 1977.

Todas citações: Tratado Médico-Filosófico sobre a Alienação Mental Ou a Mania (1800) – Philippe Pinel

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